A Certificação B está passando por uma das transformações mais relevantes desde a sua criação, com novos padrões do B Lab que reformulam a forma como as empresas serão avaliadas e estabelecem uma nova lógica para a própria certificação.
O modelo baseado em uma pontuação mínima dá lugar a uma estrutura de requisitos obrigatórios, maior atenção aos riscos socioambientais e uma trajetória progressiva de melhoria. Com essa nova estrutura, a Certificação B exige que compromissos socioambientais estejam efetivamente incorporados à governança e às práticas da organização.
Para empresas que já são certificadas, ou que pretendem iniciar essa jornada, entender essa nova estrutura é fundamental para se preparar.
Por que os padrões da Certificação B estão mudando?
O contexto empresarial dos últimos anos tem sido marcado pela crescente relevância de temas como mudanças climáticas, direitos humanos, diversidade, rastreabilidade, responsabilidade sobre a cadeia de valor e governança socioambiental nas agendas corporativa e regulatória. Ao mesmo tempo, aumentaram as expectativas sobre a capacidade das empresas de demonstrar, com evidências, como identificam e administram seus impactos e riscos.
Os novos padrões acompanham esse movimento e buscam estabelecer critérios mais claros e consistentes para definir o desempenho esperado de uma Empresa B, a partir de uma base mínima de requisitos em temas considerados essenciais para uma atuação empresarial responsável.
O fim da lógica dos 80 pontos
Essa é uma das mudanças mais importantes.
No modelo anterior, a Avaliação de Impacto B atribuía pontos às práticas adotadas pela empresa, sendo necessário alcançar uma pontuação mínima para obter a certificação. Esse sistema permitia diferentes combinações de desempenho: uma organização poderia ter resultados muito expressivos em determinados temas e resultados mais modestos em outros e, ainda assim, alcançar a pontuação necessária.
Os novos padrões alteram essa lógica.
Em vez de buscar uma pontuação global, as empresas precisarão demonstrar o cumprimento dos requisitos aplicáveis à sua realidade, o que reduz a possibilidade de que um desempenho elevado em determinada área compense lacunas relevantes em outra.
A nova estrutura começa pelos Requisitos Fundamentais
Antes de avançar para os temas de impacto, a organização deverá atender aos chamados Requisitos Fundamentais. Eles funcionam como a base da certificação e envolvem aspectos relacionados à elegibilidade da empresa, ao compromisso com a governança de stakeholders e à avaliação de riscos.
Entre os elementos previstos estão a adoção do Requisito Legal aplicável, o compromisso com a Declaração de Interdependência e a análise das características da operação que possam representar riscos sociais, ambientais ou de integridade. Essa etapa reforça a importância de uma análise mais ampla da organização, considerando suas práticas positivas, seus potenciais impactos negativos e a forma como são administrados.
Risco ganha mais espaço na Certificação B
A avaliação de riscos assume um papel mais estruturado nos novos padrões, considerando características da operação, como produtos e serviços, setor de atuação e eventuais controvérsias ou exposições relevantes. A partir do perfil identificado, podem ser aplicadas exigências adicionais de diligência, fazendo com que os requisitos da certificação variem de acordo com as particularidades e os riscos associados a cada modelo de negócio.
Uma empresa que atua em uma atividade com maior exposição a determinados impactos, por exemplo, poderá precisar demonstrar processos adicionais para identificar, prevenir, mitigar e acompanhar esses riscos.
A certificação, portanto, considera de maneira mais explícita as práticas positivas da empresa e a forma como ela administra os impactos associados à própria atividade.
Sete Tópicos de Impacto passam a estruturar a avaliação
Após os requisitos fundamentais, os novos padrões estabelecem sete grandes Tópicos de Impacto:
- Propósito e Governança de Stakeholders
- Trabalho Justo
- Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI)
- Direitos Humanos
- Ação Climática
- Gestão Ambiental e Circularidade
- Assuntos Governamentais e Ação Coletiva
Cada tópico reúne requisitos específicos que deverão ser observados de acordo com a realidade da organização.
A mudança amplia a necessidade de integração entre diferentes áreas da empresa. RH, sustentabilidade, jurídico, compras, operações, governança e liderança, por exemplo, podem precisar participar do processo de implementação e geração das evidências. Por isso, a preparação para a certificação tende a se tornar ainda menos concentrada em uma única pessoa ou área.
Nem todas as empresas terão exatamente as mesmas exigências
Embora exista uma estrutura comum, os requisitos são adaptados de acordo com características da organização: porte, setor, localização, modelo de negócio e perfil de risco estão entre os elementos que podem influenciar o conjunto de exigências aplicáveis.
Essa proporcionalidade é importante porque os impactos, riscos e recursos de uma pequena empresa são diferentes daqueles encontrados em uma grande organização ou em uma estrutura empresarial mais complexa.
Por isso, é fundamental que cada organização identifique quais requisitos da Certificação B se aplicam à sua realidade, considerando suas características, seu contexto de atuação e seu perfil de risco.
A certificação passa a incorporar uma trajetória de evolução
Outra mudança relevante é a adoção de uma abordagem progressiva, que distribui os requisitos ao longo da jornada da empresa, com expectativas previstas para o Ano 0, Ano 3 e Ano 5, incorporando de maneira mais estruturada o princípio da melhoria contínua à certificação.
A organização deverá demonstrar o atendimento aos critérios previstos para cada etapa e avançar progressivamente na implementação dos requisitos estabelecidos para os ciclos seguintes.
Isso transforma a Certificação B em uma jornada ainda mais conectada à evolução da própria gestão.
Governança de stakeholders continua sendo parte essencial
O Requisito Legal permanece como elemento importante da certificação.
Seu objetivo é incorporar à estrutura jurídica da empresa o compromisso de considerar os impactos de suas decisões sobre diferentes partes interessadas, e não somente os interesses financeiros dos sócios ou acionistas.
Isso inclui, conforme aplicável, trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidades, meio ambiente e outros stakeholders afetados pelas atividades da organização. Assim, essa perspectiva reforça uma lógica de governança na qual impacto e tomada de decisão precisam caminhar juntos.
Mais transparência sobre desempenho e riscos
Os novos padrões também ampliam a importância da transparência.
O perfil público das Empresas B tende a apresentar mais informações relacionadas ao processo de certificação, aos requisitos atendidos e ao perfil de risco da organização, considerando as características aplicáveis a cada empresa.
Essa mudança acompanha uma tendência mais ampla do mercado, em que cresce a cobrança para que as empresas apresentem suas iniciativas e demonstrem, com transparência, como reconhecem, gerenciam e respondem aos seus impactos e riscos.
O que muda, na prática, para quem quer se certificar ou recertificar?
A principal consequência é que a preparação tende a exigir um olhar mais estruturado sobre a gestão da empresa.
A preparação envolve a organização das evidências necessárias para a avaliação e, dependendo das lacunas identificadas, pode exigir a revisão de políticas, a definição de responsabilidades, a estruturação de processos e indicadores e a criação de mecanismos de acompanhamento.
Para empresas que já possuem uma agenda ESG estruturada, parte desses elementos pode estar incorporada à operação, para outras, a transição pode exigir mudanças mais significativas. Por isso, um dos primeiros passos é compreender a distância entre as práticas atuais da organização e os requisitos que serão aplicáveis a ela.
Como se preparar para os novos padrões da Certificação B?
Mesmo antes de iniciar formalmente um processo de certificação ou recertificação, algumas ações podem ajudar a empresa a organizar essa transição:
- compreender quais requisitos se aplicam ao seu perfil;
- realizar um diagnóstico das práticas existentes;
- identificar lacunas e requisitos ainda não atendidos;
- mapear políticas, processos e evidências disponíveis;
- definir responsáveis internos para os diferentes temas;
- priorizar adequações considerando esforço, prazo e criticidade;
- estruturar um plano de ação para os ciclos seguintes.
Essa preparação contribui para que a certificação seja conduzida como um processo contínuo de evolução da gestão, com ações estruturadas ao longo de toda a jornada.
Mais do que uma nova avaliação, uma nova lógica de certificação
Os novos padrões representam uma mudança de perspectiva.
A Certificação B passa de um modelo no qual diferentes práticas contribuíam para uma pontuação consolidada para uma estrutura que estabelece expectativas mínimas em temas considerados fundamentais.
Ao mesmo tempo, risco, transparência, governança e melhoria contínua ganham ainda mais relevância.
Para as empresas, isso traz um desafio adicional — mas também uma oportunidade.
A jornada pode ser utilizada para identificar fragilidades, fortalecer processos internos e integrar compromissos socioambientais de maneira mais consistente à estratégia e à operação.
Sua empresa está se preparando para os novos padrões?
A Appana acompanha empresas em diferentes etapas da Jornada B, desde o diagnóstico inicial e a identificação de lacunas até a estruturação e implementação das práticas necessárias para certificação e recertificação.
Com a mudança dos padrões, antecipar essa análise pode fazer uma diferença importante, pois permite entender o que já está estruturado, o que precisa evoluir e quais ações devem ser priorizadas antes do processo de verificação.
Para conhecer mais sobre o movimento e entender como esses compromissos se traduzem em práticas empresariais, confira também o conteúdo “Mês das Empresas B: retrospectiva, impacto e práticas na Appana”, em que reunimos reflexões sobre propósito, impacto e a experiência da Appana como Empresa B Certificada.
Leia o conteúdo completo sobre o Mês das Empresas B
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